“Vamos animar o setor privado”, diz senador Álvaro Dias

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Senador e pré-candidato à Presidência da República, Álvaro Dias concedeu entrevista ao programa Marcados pelo Sucesso, onde contou um pouco da sua infância, vida política e pretensões ao cargo de presidente do Brasil.

Senador, conte um pouco como foi a sua infância.

Uma infância certamente igual a muitos brasileiros que viveram no interior desse País. Nasci na fazenda Nova Aurora, entre Quáta e Tupã [Interior paulista]. Todos os dias, a partir dos oito anos, acordava muito cedo, quando ainda estava escuro, e tomava o caminho da cidade de Quáta em uma estrada de areia e boiadeira. Ia descalço e limpava os pés com jornais para poder colocar os calçados. Meu avó dizia: ‘quem não trabalha não come’. Então, quando eu voltava, ia para a roça.

O senhor é de uma família grande. Como era o convívio com seus irmãos? Como era o brincar da época?

Minha infância foi sempre na roça. O futebol era inevitável. Desde criança brincava com bola de meia em um campinho de Maringá. Era nossa diversão principal. Obviamente, tinha rios, lagos, coisas do campo mesmo. Aliás, eu digo sempre que os nossos governantes são muito urbanos. Eles precisam colocar um pouco os pés no campo porque é a agricultura que carrega o País nas costas nos últimos anos.

O senhor é formado em História. Pretendia ser docente à época?

Em Maringuá só tinha o curso de economia e eu estava me preparando para ingressar no curso pois já tinha o convite para trabalhar em um banco na época. E não sei o porquê, achei que tinha que sair e resolvi ir para Londrina, já um pouco tarde. Queria fazer Direito, quando fui fazer a inscrição já não dava mais tempo. Então me inscrevi em História. Depois comecei a cursar Direito, mas a política me levou e eu não pude concluir.

Como a política apareceu na sua vida?

Na universidade. Logo quando cheguei na universidade, apesar da timidez brotar de quem vem do campo, fui cooptado para ser secretário do Centro Acadêmico. E depois de um ano como presidente eu acabei, obviamente, ganhando um pouco mais de espontaneidade na fala ao pedir votos nas salas para presidente. E aos poucos você vai espancando a timidez. Logo depois fui convidado para trabalhar numa emissora de rádio. Mas a oportunidade apareceu quando certa vez eu fazia um discurso na biblioteca e políticos do governo ingressaram políticos do governo e na hora mudei o rumo do discurso e passei a criticar aqueles políticos. O diretor da faculdade era político da oposição e ele disse que eu seria candidato a vereador. Eu disse que meu título era de Maringuá e que não poderia ser candidato em Londrina. Ele falou que transferiria. Eu disse que meus pais não queriam que eu fosse político e ele disse que iria à casa de meus pais. E foi. Consultou meu pai, que disse: ‘Eu não vou te proibir pra que mais tarde você não diga que não foi o que queria ser porque eu não deixe. Mas cuidado com a política!’. Aí começou.

 

De lá pra cá, uma carreira vitoriosa: vereador, deputado estadual, federal e governador do Paraná. Quais foram os seus maiores acertos desses mandatos?

Como governador, sem dúvida, a disposição para a reforma, que aliás é uma exigência nacional hoje. O Brasil é um País a espera de reformas. Vivíamos naquela época [1986-1989] uma crise terrível. Talvez a maior crise financeira da história do Brasil com uma inflação superando 80% ao mês. Era impossível planejar para a semana seguinte. O déficit público era enorme. Portanto, o que se arrecadava era engolido pela inflação antes que se chegasse aos cofres estaduais e nós tivemos que fazer uma grande reforma. Ao final do meu mandato, o Joelmir Beting, na época ele estava na Rede Globo, no Jornal Nacional, fez o seguinte comentário: ‘Apenas um Estado brasileiro, apenas, termina a gestão com superávit. Um grande programa de obras realizado. Um milagre operado por um par de santos, reforma administrativa e saneamento financeiro do Estado. O Paraná demonstra que a administração pública no Brasil ainda é viável’. Comentário de Joelmir Betting que sintetiza o governo. E com esse comentário eu respondo a sua pergunta. O que considero como destaque na gestão de governador, com apenas 40 anos, foi a coragem da reforma e o combate à corrupção.

Senador, falando em corrupção, o senhor tem 43 anos de vida pública. Passou por seis partidos. Hoje, o senhor está à frente do Podemos. Em entrevistas o senhor costuma dizer que saia dos partidos sempre que a corrupção batia às portas. O que lhe faz pensar que o Podemos pode ser diferente disso?

Eu não considero partidos o que existe no Brasil. São siglas para registro de candidaturas. Não há identidade programática. Você vê um latifundiário da extrema direita se filiando ao PCdoB por achar mais fácil se eleger. Houve uma degradação partidária no Brasil. Com a Operação Lava Jato, isso ficou mais visível. A Lava Jato denominou partidos como organização criminosa, lavanderia de dinheiro sujo. Então não há nenhum constrangimento quando se muda de uma sigla para outra. Na verdade, eu sempre mudei procurando um partido e não encontrei. Agora estou no Podemos, que tem que levar legalmente a denominação de partido, mas que todos nós que o integramos consideramos um movimento. Certamente, se conseguimos a adesão de pessoas lúcidas, conscientes, interessadas na construção de um partido de verdade, nós teremos um partido de verdade. Esse é o nosso sonho. O que faz esse partido diferente? Ele procura fazer a leitura correta do que se passa no País. As prioridades eleitas pela população nós queremos adotar como nossas causas para o combate partidário que queremos empreender.

Recentemente entrevistamos Luiza Trajano, da Magazine Luiza, e Flávio Rocha, presidente da Riachuello, e ambos concordaram que o setor de varejo passa por um novo ciclo. A gente sabe que o governo Temer passa quase que semanalmente por novas dificuldades, denuncias ou coisas do gênero, mas decisões tomadas pelo ministro Henrique Meirelles têm feito que a economia, ainda que timidamente, reaja. Qual a sua avaliação sobre essas medidas?

O Brasil mergulhou em um oceano de dificuldades quase que intransponíveis. Mas as potencialidades economias do Brasil são reconhecidas internacionalmente. Aos poucos, a economia foi se descolando da crise política. Muito mais pela força vegetativa da economia brasileira do que as medidas tomadas pelo governo. Porque as medidas são tímidas, que não atingem o alvo principal, que são dívidas e déficit público. O que se vê é uma recuperação da economia privada. As finanças públicas continuam desorganizadas, desorientadas. São momentos de depressão financeira do setor público, de incapacidade absoluta de investir em setores essenciais. O que arrecada, arrecada muito. Você pode ver que não se fala muito em reforma Tributária porque o governo está satisfeito com o que arrecada. O governo quase não fala em dívida pública, que consome neste ano de 2017 consome R$ 1,7 trilhão para pagamentos de juros, serviços e encargos, ou seja, para arrolar a dívida. Isso significa 52% do orçamento da união. O déficit da previdência corresponde a 12%. Veja a monumental diferença entre um rombo e outro. A economia está realmente reagindo pelo setor privado por causa do descolamento da crise política. Isso é fantástico, mas ainda é um crescimento pífio. Nós só voltaremos ao nível de 2012 por volta de 2023. Veja o estrago que as medidas econômicas equivocadas dos governos do PT causaram. Foi a consagração absoluta da incompetência administrativa e da corrupção. Vamos animar o setor privado sim, para que eles continuem investindo, mas precisamos ter o pé no chão para encarar de frente essas dificuldades.

A população brasileira tem um tiro só em 2018.

Exatamente. Aí é uma questão de grande responsabilidade. As pessoas conscientes não podem se omitir. Tem que assumir a postura de protagonismo para influir e evitar o mal maior da péssima escolha.

Quem é o principal adversário do senhor ano que vem? Bolsonaro, Lula ou a descrença do povo brasileiro acerca dos políticos?

Sem dúvida a descrença. Esse é o grande desafio. Os brasileiros perderam a fé durante essa estrada da decepção que caminhamos nos últimos anos. Eu só sou candidato porque eu acredito na inteligência das pessoas. Por quê? Nós não temos dinheiro para fazer campanha, não temos tempo de TV e não temos estrutura pois o partido está começando agora. Mas esses grandes obstáculos serão um ponto a favor. Essas grandes alianças serão encaradas pelo eleitor como ‘o bolo é pequeno demais pra tanta gente comer’. Foram essas alianças alargadas que levaram o País à crise. Porque para cooptar apoio, o presidente da República foi criando estruturas. São 149 estatais no Brasil, 30% criadas pelo PT. Aumentou o número de ministérios, departamentos, coordenadorias. Inchou a máquina pública. A reforma do Estado brasileiro passa pelo apoio popular e não pelo apoio partidário.

Essa descrença da população em relação da política brasileira faz com que se busque o dito novo. Isso tem aberto espaço para que pessoas que nunca fizeram parte propriamente dito da política brasileiro entrassem à concorrência. Qual a sua avaliação sobre isso?

O que o eleitor brasileiro deseja é o novo na forma, no sistema, no modelo e não na fotografia. Porque se não vá buscar o Brad Pitty ou vá fazer uma plástica. O que a população quer é experiência administrativa e passado limpo. Tanto é que alguns novos que são projetados pela mídia dão voo de galinha. É igual o golfinho: levanta a cabeça e mergulha no mar das incertezas. Esse sistema antigo fracassou. Quebrou o governo, não o Brasil. Tem que acabar esse balcão sujo de negócios. E quem vai destruir isso é o eleitor.

Caso o eleito, como será o Brasil pós Álvaro Dias?

Se eu perder a eleição vou me sentir confortável porque cumpri a minha missão. Me dispus a colaborar para mudar o Brasil para melhor. Se eu vencer, eu vou sofrer muito, mas será uma honra, porque o próximo presidente vai sofrer demais se ele quiser mudar o Brasil para melhor. E o País será totalmente diferente. Estará vigorando um novo sistema. Um novo Estado e, sobretudo, uma nova cultura política imposta pela sociedade, pois há um consciente coletivo emergente emergindo. A sociedade não admite mais esse sistema promíscuo instalado no Brasil. Nós vamos superar, certamente, essa dificuldade. Que fique registrado nessa entrevista, se eu for eleito o Brasil será diferente.